quarta-feira, 18 de março de 2009

confins da escada

Desde que me conheço por gente as escadas que não levam a lugar algum me seduzem.
Explico.
Sabe quando se desfaz uma casa, quando uma construção ganha o prefixo ex ou des... e sobra entre paredes mortas uma escada? Você sabe?
A escada que sobe, ou que desce não dá pra lugar algum, talvez para um "abismo" de um ou dois andares no máximo, ou por muito pouco, para uma parede. Porque antes da desconstrução tinha uma porta na parede ao lado, e agora não existe mais. Nem porta, nem cômodo, só a escada, e por muito, a parede. Ah sim, às vezes o corrimão fica junto, mas às vezes não. Então, é por conta e risco de quem quer se aventurar pela subida sem o corrimão.
Meu encantamento pela escada-com-fim não é pela falta, mas sim, pelas mil possibilidades daquela subida a lugar nenhum. É como se no meio da subida, a escada pudesse me trazer sensações não antes vividas. E quem sabe teria assim um objetivo, além do último degrau.
Mas não é qualquer escada, ela precisa também não ter um teto. De preferência que a tinta ou madeira estejam descascados...
Não pode ter aparência de tragédia, nem de novo. Não vale aquelas escadas que a gente vê nos filmes depois do tornado F5. Não! Tem que tem um propósito.
No momento da demolição, quase tudo foi, menos a escada. Sua presença ali tem um porquê pensado! Mesmo que depois, ela também se vá com o teto, paredes, e o todo o resto. Ela tem que ter a áurea de uma escada cheia de histórias, pegadas, poeira, e escorregadas. Tem que ter junto dela o som do salto-alto, as vozes das crianças e da mãe gritando cuidado-pra-não-cair-menino, tem que ter a lembrança do perfume pós-barba e da fragrância de lavanda do desinfetante.
A escada tem que ter textura de história.
E de vez em quando, entre um degrau e outro, lá no canto (que também em breve não existirá mais) ter nele flocos de pele humana travestida de poeira.
Quando criança, estas escadas por assim dizer, abandonadas, me bolinavam os pensamentos. Tinha sempre um "quê" de mágica que as acompanhavam.
Mas hoje, não há mágica, e sim o 'bucólico'. Junto a vontade de construir um jardim cheio de marias-sem-vergonhas aos pés do primeiro degrau.


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