
Hoje o dia amanheceu meio sem cor.
Achei que ela viveria como Martha Graham até os 96 anos, ou mais... ou talvez nunca morresse... é... eles parecem imortais. Mas quando morrem nos trazem outra referência, a referência de que nós continuamos vivos. E aí?
Em 2006 assiti o Tanztheater Wuppertal. Ao final do espetáculo Pina Bausch entra para agradecer o público. Ovacionada!!! Quase tive um treco. Ela estava na minha frente (ou perto disso). Bati palmas até doerem minhas mãos. Meu coração saltava pela boca. Chorei sabe-se lá porque. Minha vontade imediata era descer e lhe dar um abraço. E agradecer: Danke, danke! Ali tive a certeza que minha alma ansiava trabalhar com ela. Fui então, ver os procedimentos necessários: além dos requisitos da dança-moderna, eram necessários inglês excelente e alemão muito bom. Danou-se, pensei. Alemão, muito bom? Muito bom quanto? Voltei meus estudos com o inglês, parei o francês, e iniciei o alemão. Pouca aptidão, lamentável! Quem sabe um dia um workshop na Europa, quem sabe quanto ela viesse ao Brasil, quem sabe se de repente ela abrisse uma audição, para quem sabe um outro espetáculo ("Água-2001) sobre o Brasil, é... quem saberia.
Anunciou-se a turnê no segundo semestre de 2009 com Café Miller, imediatamente pensei: vou guardar dinheiro, desta vez quero ficar ali nos detalhes. E talvez sentir o perfume da "Sagração da Primavera"...
Mas não deu tempo!
Cinco dias depois da descoberta de um câncer, ela falece numa estranha manhã de terça-feira.
A TV dá uma chamada comunicando a morte com 68 anos de idade. Fiquei imaginando como o céu deve estar em festa. Dois mestres! O inventor do moonwalk e Pina Bausch, pioneira da dança-teatro no mundo. Imagina a mistura disso. O deslizar e o flutuar juntos...
Pina dançava em vida com a alma que grita.
Seus movimentos expressivos, românticos, ou deveras doloridos.
Sua mistura com a dança, unindo o teatro. Voltando aos primórdios.
Um amigo meu disse hoje, quando em prantos escrevia para ele no MSN sobre Pina:
"Tá na moda morrer".
"Tá na moda morrer".
Tá na moda?!
Como artista, me sinto nua. E fora de moda. Sem alicerce.
Me sinto densa, me sinto.
A dor de um siso, recentemente extraído, foi engolida pelo sufocamento emocional da partida de alguém, quem nem sabia da minha vida, mas eu tanto via em sua existência os meus desejos.
Meu coração dói, chora. A palpitação a partir de hoje, virará dança no meu peito.
Minha alma carece.
Se eu pudesse agora mesmo dançaria em cima de flores, molhada pela chuva, escorregaria lentamente em pedras, viveria meus músculos e movimentos no saltar súbito desta mesma morte tão igual.
Pina Bausch morre deixando um legado artístico inconfundível.
Acho que é isso, voltarei estudar alemão, talvez.
Mas se eu pudesse, aprenderia mesmo a língua dos anjos, que nos demonizam e nos tocam em vida.
3 comentários:
Lindo o texto!!! Fará muita falta!!!
Que os anjos possam aliviar a dor que te sufoca.
Beijo,
Lourdes.
Triste. Que triste!! Certa vez vi cinco minutos de Café Miller. Até hoje isso ecoa e pulsa dentro de mim como se pulasse de bung-jump. Ah. Um suspiro.
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