domingo, 19 de julho de 2009

glam. glitz. gloss . glory




Escama de peixe brilha ao sol.
Tive também em certa época um certo ouro: pedrinhas de construção mergulhadas na cola e empanadas na purpurina de cor dourada.
Ficavam numa caixinha torta e quase desfeita de um ex-sapato qualquer. Importante mesmo era o "ouro" sintético ali contido.
Excitante era todo dia abrir o armário e escondidamente, assim como Tio Patinhas, me envaidecer da preciosidade fechada a nenhuma chave ou senha.
Uma das primeiras frustrações da vida, foi um belo dia acordar, e quando perceber que a caixinha havia desaparecido:
- Manhêee, você viu uma caixinha com ouro deeeenntro?
- Joguei fora! Aquilo eram pedras... e tava ocupando espaço.
- (!!!)Aquilo era ouro.... você não viu escrito "ouro de vanessa"???

É verdade que naquela época, com uma década quase completa de idade, minha letra não era muito bonita, mas era legível, poxa vida!!
Ressalvo ainda que minha letra, mesmo depois de grande, nunca foi bonita, e hoje já não tenho mais esperanças.

Voltando ao caso.

Sempre fui assim, hoje menos, por conta da praticidade que a vida demanda. Mas sempre fui assim.
Tudo que brilhava eu guardava, e tinha mesmo, digamos, um tesão infantil, de perceber que aquilo agora me pertencia.
Muitas coisas guardei: enfeites de natal quebrados, laços de presentes, estrelinhas de papelaria, pedaços de tecido, bijuterias abandonadas que tinham alguma pedrinha que cintilava ao sol, escamas de peixe...
Ops, escamas de peixe? Explico.

Em frente a casa da minha vó (várias vezes mencionada neste Blog) uma vez por semana, um senhor que não lembro o nome, abriu uma barraca de feira onde vendia peixes fresquinhos. Quando ele partia ficavam centenas resplandecentes escamas de peixe no asfalto. Eu não perdia tempo. Pegava um saquinho ou qualquer receptáculo, e mandava ver. Guardava o máximo que podia, para assim, nos dias que se seguiam, ficar admirando ao sol meu mais novo tesouro....semanal. Toda semana tinha que renovar o tal tesouro, porque aquele "trem" fedia deveras. E minha vó, sempre reclamava!!

Fiquei durante um tempo sendo chamada pelos vizinhos de margarida. Eu achava o máximo. Pensava que tinha ver com o charme da Margarida do Pato Donald. Engano meu! Só mais velha fiquei sabendo que margarida era o feminino de gari.

Hoje não tenho ouro guardado (nem sintético, nem de verdade!).
Mas tenho um baú repleto de figurinos, moedas antigas, nariz de palhaços, pedras (semi?) preciosas, óculos escandalosos... E brilho, muito brilho!!

2 comentários:

Marcos Muniz disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Marcos Muniz disse...

Van, adorei o texto logo na primeira frase. O texto tem rítmica é gostoso de Ler. Descreve poéticamente algo simples com muita propriedade, leve e muito veradeiro. A sonoridade das palavras, Escama de Peixe Brilha ao Sol,é convidativa e engraçada.
Aadorei.
Bj Marcos.