terça-feira, 11 de agosto de 2009

Voo Destino 16749

Por Juliana e Vanessa Portugal

Abriu os olhos. Virou-se para o lado direito da cama. Olhou o relógio. 7h14. 7h14?!!!!!! A merda do relógio não deve ter despertado, o que não seria nenhuma novidade. Ou seria ele que não havia programado o relógio? O que também não era nenhuma novidade. Já estava preparado para saltar da cama, quando se lembrou que era sábado. Era sábado e ele não trabalhava aos sábados. Ele não trabalha aos sábados, domingos e feriados. Deitou novamente. Não conseguia mais dormir. Observou as paredes do quarto. Diversos riscos que denunciavam o vencimento da pintura. Decidiu que no próximo feriado pintaria o quarto. Se animou e fechou que pintaria não só o quarto como também o resto do apartamento. E ainda, usaria a atividade como desculpa para fugir de uma viagem à praia. Tinha pa-vor de congestionamentos na estrada, sem contar as horas para encontrar um lugar na areia, fila em tudo que é canto. Tsc, tsc, péssima ideia! Aliás, para ele, péssimas ideias vinham sempre da namorada. Foi ela quem deu a ideia e a própria samambaia que fica na sala. Dizia com ares pseudo-esotéricos que o apartamento precisava de vida. Ele nunca entendeu isso. Ele já não morava lá? E ela? Não estava sempre por lá? Pra que mais vida no apartamento ? Tem hora que mulher gosta de complicar. Só aceitou a planta depois de uma semi briga na qual o placar foi ele sem razão e ela fazendo bico e lágrimas nos olhos ainda no primeiro round. Ela jurou que a samambaia não daria trabalho nenhum. Mas deu. E para não vivenciar um segundo round de briga por causa da planta, a cada morte de uma, ia rapidamente em busca de uma substituta. Estava na terceira. Pensou em pedir um desconto na floricultura, um cartão de sócio, ou qualquer outro benefício que eles oferecessem tivessem por lá, afinal, em dois meses ele deixou por lá R$ 167,49, mas logo desistiu: porque "dessa vez eu pego o jeito", acreditava ele. Os amigos alertaram que ele estava cedendo rápido demais, e daqui a pouco viria cachorro, filhos e casamento. Não necessariamente nesta ordem. Então ele argumentou que se cedesse com a samambaia não surgiria cachorro, filhos e casamento. Mas lá no fundo tinha receio de não estar certo. Perdeu o sono. Não tinha mais sono. Abriu a janela. A cidade já ensaiava a movimentação habitual. Decidiu tomar café na padaria. No elevador, ele encontrou os vizinhos do 17.º, famosos pelos barracos no edifício. Toda vez que os via, ele pensava em como tinha uma vida agradável: um emprego que todo final de mês garantia um ótimo salário, um apartamento quitado, carro do ano, seu time campeão na Libertadores, churrasco com os amigos, e uma charmosa namorada... ah sim, e uma planta descabelada que dava vida ao seu apartamento. Foi então sentindo que levava uma vida medíocre. Começou ficar com inveja dos vizinhos barraqueiros. Da próxima vez eu entro no barraco, pensou. Depois negou o próprio pensamento, pois odeia brigas, tanto que muitas vezes acaba cedendo `as vontades dos outros... Sábado pacato e congelante, final de noite, baralho com os amigos publicitários-super-espertos da namorada. Domingo lasanha na casa da futura sogra (bota futura nisso). Segunda-feira. Ao chegar na sua mesa uma passagem para Londres, reunião no final da semana. Isso sempre acontecia! Às vezes tinha a sensação de não ser dono da sua própria vida. É, e talvez não fosse mesmo. Avisou a namorada, mãe, pai, irmão, e amigos. Talvez esta viagem fosse boa para ele dar um tempo, e quem saber fazer algumas mudanças vitais... A merda do relógio não deve ter despertado. Não conseguia mais dormir. Turbulência. Observou as paredes tremendo. Malas caindo do teto. Diversos riscos que denunciavam uma possível tragédia? Decidira que no próximo feriado pintaria o quarto a la Pollock. Queda. Tinha pa-vor. De repente deu-lhe vontade de se agarrar nas crinas da samambaia, e regá-la. Cuidar dela. Desta vez ele tinha certeza que ela viveria... Também sentiu vontade de casar, ter filhos... um cachorro, dois. Até um gato ele incluiria no pacote. Ele odiava gatos. Sentiu saudade do congestionamento (!!!) Lembrou do pacato e último final de semana na casa da sogra (?!), lembrou de quando era pequeno e da sua mãe dizendo pra não colocar o dedo na tomada, lembrou do pão-na-chapa da padaria da esquina, lembrou do perfume da namorada... Ele já não morava lá? E ela, não estava sempre por lá? Pra que mais vida no apartamento? De fundo a voz da aeromoça em prantos dizendo pra todos colocarem o cinto. Sinto muito! Dizia a senhorinha ao lado que apertava a sua mão com tamanha veracidade. A janela se abriu. Ele já estava preparado para saltar, porém já não sentia mais nada. Antes mesmo do feriado, percebia que o mar, agora tão próximo, ensaiava a movimentação habitual. Ele estava cedendo rápido demais. Lembrou da sensação de toda uma vida agradável, pacata talvez... mas medíocre, não isso nunca. O valor da vida foi tomando proporções imensas, que não lhe cabiam no corpo. Se pudesse dessa vez pediria à Deus um cartão de sócio com desconto. Me livra dessa vai. Quando se lembrou que era sábado. Era sábado e Ele não trabalhava aos sábados. Ele não trabalha aos sábados, domingos e feriados. Deitou novamente. Virou-se para o lado direito da cama. Olhou o relógio. 7h14! 7h14??!!! A merda do relógio não havia despertado.

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