sexta-feira, 9 de outubro de 2009

amor não dói, amor cura.

Minha primeira paixão, se é que podemos dizer assim, chamava-se Leopoldo. Eu como sempre precoce, tinha meus quatro, cinco anos no máximo. O menino era sobrinho-neto do vizinho que morava em frente à casa dos meus avós. O menino visitava o seu tio-avô de vez em nunca, raramente. Ele era uma beldade. Loirinho, branquinho como a luz. Uma graça! Nós dois envergonhados que éramos, nunca nos falamos. Vivi este amor platônico por uns dois anos, que com a aquela idade era mais que 1/3 da minha vida. Como a gente perde tempo desde cedo! Sempre que falavam "o Léo esta aí", meu coração tremia, e lá ia a D.Chica se arrumar todinha, subir na laje, virar cambalhota, cantar Xuxa, fazer pose pra ser notada. Menino besta que nunca veio falar comigo, a não ser trocar algumas saudações-mudas por sinais à distância.

Podemos dizer que foi assim que começou meu longo caminho tempestuoso no mundo estranho das paixões.

Mas a fila anda. E logo entrei na 1ª série do primeiro grau.

Uma vizinha que tinha matriculado o filho na mesma escola me dava carona duas vezes por semana. Era um carro, já na época, velho. Não lembro se era uma Brasília ou Belina, lembro da cor: um marrom-claro cheio de marcas de funilaria. E lá, ia a D. Chica pra escola com o Antônio, o filho da vizinha. Antônio, diferente do Leopoldo, era dentuço, um pouco gordinho, mas muito simpático e sempre falava comigo. Minha segunda paixão!

Quando o tonto do Antônio percebeu que eu dava mais balas e chicletes pra ele do que para as outras crianças, ele começou a me ignorar. Tonho!!

Na 2ª série um menino muito do bonitinho, chamado Nico, sempre me trazia bis, e dividia a bisnaguinha comigo. Um gentleman! Até que comecei a ter uma quedinha por ele. Mas ele me dava muita atenção. E me desinteressei. Gostava de desafios (!!). Teve também na mesma época o Carlos Roberto, nunca senti nada (paixão?) por ele, que sempre muito prestativo levava o meu material e a minha mochila. Mas eu nunca dei bola.

Aos 9 anos de idade conheci o Heitor. Só encontrava com ele nas férias quando viajávamos para o interior, onde nossos pais tinham ranchos próximos. Entrando na minha pré-adolescência, com os hormônios doidos e desavisados, foi este meu primeiro amor. Platônico durante alguns anos, até entendermos as loucuras hormonais e a quebra de limites. Éramos assim, namorados de verão. Trocávamos cartas, fotografias, longos e caros telefonemas... Tínhamos namorados e namoradas em nossas cidades natais, mas eu sentia que sempre éramos prioridade um para o outro quando apontava um feriado prolongado... As viagens para o sítio... meudeusdocéu quanto frio na barriga, quanta palpitação. Já com os nossos 16 anos viajávamos sozinhos ao encontro do outro, o feriado já não era mais o motivo da espera, fazíamos os motivos. Depois as responsabilidades, as diferenças de quereres foram diminuindo os encontros. Por fim, findou-se.


O Leopoldo eu nunca mais vi, não sei casou, se teve filho, se virou gay...

O Antônio, encontrei com ele há quase 10 anos no metrô. Disfarcei. Continuou dentuço, barrigudo, e ficou baixinho. Perdeu todo o charme.

O Nico aprendeu tocar violão. Hoje é pai e casado com uma das minhas melhores amigas daquela época.

O Carlos Roberto virou companheiro de aventuras de uma longa fase da minha vida. Mas faz muitos anos que não o vejo. Saudades!

O Heitor é uma das mais fortes raízes da minha fase infanto-juvenil. Virou um grande amigo. E acabei sendo madrinha de casamento dele. Nos vemos com pouca freqüência.


É... Engraçado perceber como as histórias-mirins se repetem na nossa vida-adulta. Os papéis são quase os mesmos, só muda o tempo, um pentelho a mais ali, uma ruguinha acolá, um fio branco aqui... Demora pra entender que os meninos gentis os que nos dão bis, os que levam nosso material escolar, os que nos dão atenção, os que nos fazem rir são estes os parceiros que tem grandes chances de ficar.

Os amores não precisam ser complicados, não precisam se a base de tapa, gritos, amarras, cobranças, taças quebradas na parede, choros e gritos. Adoro Almodóvar, mas...

O amor não dói, o amor cura.


PS: para não dar uma de Sophie Calle (rs) os nomes foram alterados.

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