Vem num chacoalhão de sentimentos: misto de deveres, de vontades, de insanidades.
A coisa vem, ressurgi, renasce feito fênix, e fica ali parada. Dá o ar da graça e, se você não tiver assunto, volta docemente de novo, para o seu lugar, quietinha, no fundo do baú, nas entranhas da alma, na inconstância revelação.
Daí, numa tarde de quinta-feira outonal, um cheiro de café, um gosto de pão com manteiga, faz vir à tona a lembrança de biscoitos quentinhos.
Meu avô fazia biscoitos de-li-ci-o-sos, aiii como era bom. Junto do biscoito vinha também o gosto do aconchego, do carinho, da proteção ...
Biscoito do vovô. Tem coisa que a gente nunca esquece.
Engraçado - talvez até mesmo trágico - temos a sensação de que tudo continuará como se está: faremos sempre o mesmo percurso pra ir e voltar de casa ao trabalho, passaremos as férias no rancho da Lili, comeremos macarrão da tia Meire aos domingos... Como se nunca fossemos envelhecer.
Os momentos são assim, passageiros, chicoteados... e quando menos se espera, pluft, já foi.
O melhor - ou pior- momento deste 'agora' que você vive, ficará para a história... pra sua história. Porquê tudo naturalmente muda.
Certa vez, quando ainda morava com os meus avós, chegaram as compras do mercado. Meu avô não tinha carro. E naquela época, existia os Entregadores (hoje ainda deve existir, mas nunca usei o serviço). Eles eram troncudos, e rápidos na entrega. Deixavam os produtos dentro da casa do freguês. Traziam caixas, sacolas, sacos, e os dispunha no chão, na mesa, na cadeira. E eu como curiosa que só, adorava ver o que tinha sido comprado. Claro!
Mas era época de vacas magras, acho.
Ao abrir uma sacola vi muuuitos doces-de-leite, e gritei feliz:
- uauuuuu, doce de leeeeite! doce-de-leite! Posso abrir?
Daí a minha tinha Baixinha disse que não era doce de leite, e sim, sabão de pedra.
Lembro do entregador me fitando e repetindo que era sabão de pedra; e do meu avô me olhando fraternalmente de canto.
Silêncio.
Fiquei acanhada por confundir doce-de-leite com sabão de pedra...Não senti frustração, ou coisa que o valha... foi só um constrangimentozinho.
Desci da cadeira, e parei de fuçar as compras.
Voltei ao quintal pra brincar com o Chiquinho, um pequinês legítimo de cor caramelo.
Naquele dia outonal, a tarde tinha céu de brigadeiro, e o sol lambia suavemente as plantas da titia Teté.
Escondida, raspei tecos do sabão-de-pedra e misturei à água, e com uma Bic sem carga, fiz doces coloridas bolhas de sabão.
2 comentários:
Saudade disso tudo...
Como seria bom se continuassemos crianças assim: não dá pra comer doce então faremos bolas de sabão! Aproveitar o máximo da vida sem a preocupação de não ser o que se espera... Lindo... Também me deu saudades da infência, mas as minhas fazia com detergente.. rsrs
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