domingo, 12 de fevereiro de 2012

Vozinha na Colina da Paz


Certa vez um amigo me disse: " Avós são patrimônio vivos". Ontem um deles partiu. Partiu uma vó Doroty. Avó paterna. Esta minha vó parecia com a vozinha do pão de queijo. Baixinha, fofinha para abraçar, cabelos branquinhos, óculos no meio do nariz, e um sorriso maroto nos lábios. Fez sapateado quando jovem. Foi telefonista em hotéis chiques da época da Tropicália. A primeira a ouvir composições, que se tornariam hits de sucesso. Artistas como Toquinho, Chico Buarque compunham e ligavam para saber a opinião da telefonista D. Doroty.

Minha vó era ótima contadora de histórias. Olhos marejados com emoção ao lembrar-se dos causos. Vibrante! (Cá entre nós, coloca muito ator no chinelo.) Era dela aquelas vivências, e aquela vibração.

Uma voz doce. Gostava de pintar e bordar.

Cozinheira de mãe cheia. Quando fecho os olhos posso sentir o sabor da carne assada que só ela fazia. Ontem no velório, várias senhorinhas do Grupo da 3ª Idade e do Coral da cidade de Sarapuí a homenageavam. Vovozinhas de outrem

Seu corpo ficou na Colina da Paz, paisagem generosa e verde. Ontem chovia fino. Mas deve ter um belo pôr-do-sol.

Nós ficamos com as lembranças, o nosso bem palpável. Tão profundo e efêmero quanto a vida.

Na certeza que um dia a reencontro, sou cercada por um conforto fofinho para abraçar.

Hoje é outro dia, e o sol nasceu.