Certa vez
um amigo me disse: " Avós são patrimônio vivos". Ontem um deles
partiu. Partiu uma vó Doroty. Avó paterna. Esta minha vó parecia com a vozinha
do pão de queijo. Baixinha, fofinha para abraçar, cabelos branquinhos, óculos
no meio do nariz, e um sorriso maroto nos lábios. Fez sapateado quando jovem.
Foi telefonista em hotéis chiques da época da Tropicália. A primeira a
ouvir composições, que se tornariam hits de sucesso. Artistas como
Toquinho, Chico Buarque compunham e ligavam para saber a opinião da telefonista
D. Doroty.
Minha vó
era ótima contadora de histórias. Olhos marejados com emoção ao lembrar-se
dos causos. Vibrante! (Cá entre nós, coloca muito ator no chinelo.) Era
dela aquelas vivências, e aquela vibração.
Uma voz
doce. Gostava de pintar e bordar.
Cozinheira
de mãe cheia. Quando fecho os olhos posso sentir o sabor da carne assada que só
ela fazia. Ontem no velório, várias senhorinhas do Grupo da 3ª Idade e do Coral
da cidade de Sarapuí a homenageavam. Vovozinhas de outrem
Seu corpo
ficou na Colina da Paz, paisagem generosa e verde. Ontem chovia fino. Mas deve
ter um belo pôr-do-sol.
Nós
ficamos com as lembranças, o nosso bem palpável. Tão profundo e efêmero quanto
a vida.
Na
certeza que um dia a reencontro, sou cercada por um conforto fofinho para
abraçar.
Hoje é
outro dia, e o sol nasceu.
